Para Começo de Conversa #10
O que a Revolução de 1932 tem a ver com saudade? Uma conversa sobre 9 de julho e memória
Oi, tudo bem por aí? Quais as suas novidades de lá pra cá? Aqui em São Paulo, essa semana teve feriado. O dia 9 de julho é marcado na história do estado como símbolo de uma revolta política. Mas, dentro da minha memória, essa data carrega um outro valor — muito mais afetivo e pessoal. E isso me faz pensar em como o significado das coisas depende do lugar de onde a gente as vê.
##10 - CASA, MEMÓRIA E AS HISTÓRIAS QUE A GENTE ESCOLHE CONTAR
O ano era 1932. Os paulistas, indignados com as medidas adotadas pelo então representante do país, Getúlio Vargas, brigavam por uma nova constituição. Foram três meses de conflito armado e apesar da derrota da população, a batalha virou um marco cívico, que agora é celebrado no dia 09 de julho.
Mas aqui não me cabe discutir política. Não hoje, nesse texto. Nessa data, o que me salta aos olhos é o significado que a minha 9 de julho tem. É o nome da rua em que cresci, mais precisamente no número 821.
Hoje, meus pais não moram mais lá. Mudaram até de cidade, para uma rua que – ironicamente – é próxima a uma avenida cujo nome deu origem ao Elisa do meu. Mas minhas lembranças mais felizes continuam habitando meu antigo endereço. E é esse carinho – unido ao poder nostálgico que só a distância cria – que me faz celebrar.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ainda assim, a 100 anos, uma revolta contra um governo ditatorial chamou a atenção para uma data que virou símbolo espalhado pelo estado em forma de feriado e nome de ruas. E numa dessas, lá na cidade onde eu nasci, calhou de ser a primeira resposta em que penso quando alguém me pergunta “Onde é sua casa?”.
A história coletiva ganha outras nuances quando colocada na perspectiva do individuo. Assim, tudo pode ser alguma outra coisa.
Não é bonito?
Desde que eu saí da antiga casa dos meus pais, já troquei de CEP algumas vezes. Em cada uma delas, me obriguei a desapegar um pouco mais da ilusão de aterramento. E mesmo agora que estou construindo um lar com a pequena família que formei, ainda tenho receio de me enraizar.
E se me arrancam de novo, com tudo?
Aí, vai ficar um novo buraco, desses que a só se esvazia quando o que antes existia ali era o sentimento mais bonito e aconchegante.
Eu morro de saudade de uma casa que não existe mais. Há alguns meses minha mãe voltou à nossa antiga residência – que foi comprada por uma amiga da família – e se espantou por não nos encontrar mais lá. A disposição dos móveis, que agora também são outros, nos cômodos reformados para satisfazer os gostos dos novos moradores, nos tiraram de vez de lá.
Eu achei tudo tão diferente, que nem chorei – ela disse.
Que bom, pensei. O engraçado é que os meus pais mantiveram seus antigos móveis, Mas na nova rua da atual cidade, aquelas mesmas coisas parecem diferentes. É que as rachaduras agora são outras. Aqui – de onde escrevo nossa edição de hoje – as rasuras nas paredes ainda não nos significam muita coisa. Há muita história pra se escrever até também ganhar tanto valor.
A memória é um campo fértil para novas realidades. Através dela, um feriado político vira recorte de uma infância feliz e pacífica, em que as únicas disputas eram triviais: uma criança cansada e imunda teimando pra não tomar banho, ou relutando pra deixar a mãe escovar seus dentes. Nesse contexto, o campo de batalha é muito mais divertido de acompanhar, né?
Tudo isso me faz refletir profundamente sobre os labirintos sinuosos da nossa mente. Um fato é apenas algo sucinto e trivial, sem a interpretação de quem o vive. E uma mesma história pode ser contada de mil maneiras diferentes, a depender da mentalidade de quem conta.
Cor, raça, identidade de gênero, sexualidade, classe social, credo. A gente é coisa demais, e daí pra um tanto de outras, abrem-se ainda mais caminhos.
Não é assustador?
É isso, inclusive, que me incentiva a temer a força de discursos de extrema direita – penso na nova rebelião que a gente ainda não estourou e que agora faz falta. No uso indiscriminado de inteligência artificial para manipulação de informações. Não é de hoje que nos deixamos levar por um bom storytelling. Mas para onde estamos indo?
A gente acha que se lembra – de lugares, momentos e pessoas. Mas talvez, nossa memória seja só um filme adocicado – ou divertido, ou tenebroso – de acordo com o que sentimos. É por isso que é essencial se permitir ouvir e questionar, inclusive através da terapia.
TEM CHORO MAS TEM DICA
A dica de hoje é o episódio “Sobrevivendo ao luto”, do podcast Bonita de Pele. Em uma conversa linda e profunda, a apresentadora Jana Rosa, o psicanalista André Alves e a psiquiatra Rafaela Lima falam sobre o doloroso processo de viver uma grande perda – seja ela material ou simbólica.
Alguns meses atrás a própria Jana perdeu sua irmã mais nova, Aura. Na época, lembro de me chocar com um post no instagram da influenciadora. Era um texto sensível, bonito e desolador (estou deixando o link aqui pra quem se interessar, porque é triste, mas lindo).
Agora, nesse episódio, é tocante assistí-la trazendo um pouco do seu processo e nos convidando a pensar com mais carinho no que o psicanalista André Alves chama de “gramática da perda”.
A morte é a única certeza que temos em vida. Mas, se já sabemos que tudo acaba, por que se deparar com um rompimento é tão perturbador? Quando a dor da falta é tão latente que vira sofrimento físico, o que pode ser feito pra anestesiar?
É possível sobreviver ao luto e se reconstruir apesar do vazio que fica?
Te indico se você está procurando algo que ecoe questionamentos interessantes.
O poder se esconde na possibilidade de ressignificação. O que o tempo não apaga, nossa interpretação preenche do jeito que lhe convém. E isso pode ser assustador, sim. Mas também é bonito. Porque quer dizer que a gente ainda tem alguma margem de escolha sobre o que carrega.
Seja sobre uma rua chamada 9 de julho, um sofá que trocou de sala, ou um país tentando reescrever o próprio passado. O que importa é a história que a gente conta a partir do que ficou.
E você? Qual é o seu “9 de julho”? Comenta aqui no Substack. E se fizer sentido, compartilha com alguém que você gostaria de levar de volta pra uma memória especial.
